Luminiscências – Sergio Agra

LUMINISCÊNCIAS Capítulo IX da Série As Crônicas de Aleph Aleph concluíra ser impossível voltar a cabeça e não contemplar o que naquele momento definitivo ele deixava para trás: a morada…
Foto: Sergio Agra

LUMINISCÊNCIAS

Capítulo IX da Série As Crônicas de Aleph

Aleph concluíra ser impossível voltar a cabeça e não contemplar o que naquele momento definitivo ele deixava para trás: a morada onde ele havia nascido.

Era uma antiga construção que o então já consolidado Almoxarife-mor alugara com a mulher e quatro filhos, dentre estes aquela que viria ser a mãe de Aleph. Na fachada principal localizava-se a porta, dividida em duas metades de alto a baixo, flanqueada por uma ampla janela de quatro batentes, significativamente elevada em relação ao plano do passeio. Em seguida a essa meia-porta se distinguiam os três degraus de relativa altura entre si. Galgado o escalão que se nivelava ao pé direito do restante da moradia, iniciava-se o longo corredor pelo qual se tinha acesso, de um lado a sete arejados cômodos, dentre dormitórios, banheiro, sala de jantar e copa; de outro, o pátio lajeado que alcançava a cozinha e a despensa — esta última transfigurada em dependência para as duas serviçais, mãe e filha.

Fora dos janelões dessa casa, seguro pelas mãos ainda firmes da avó materna que Aleph gritou o nome do Caudilho — jocosamente apelidado por seus adversários políticos de “O pai dos pobres e a mãe dos ricos” — que desfilava ante o olhar estupefato do menino a bordo do flamante RollsRoyce conversível preto, incessantemente protegido pelo vigilante Anjo Negro, seu homem de confiança, rumo ao Palácio, a poucos quarteirões dali. O Caudilho ao ouvir o clamor infantil ordenou ao motorista que detivesse a marcha do automóvel e, com o inefável sorriso que lhe era marca pessoal, acenou para o garoto. Fora da mesma janela que Aleph se persignou ante a visão da imagem do Salvador nas procissões de Corpus Christi. Debruçado naquele mesmo peitoril, o moleque, não poucas vezes, rira dos exagerados desvelos das freiras, ao final do turno de aulas do liceu religioso, ante o bulício das álacres alunas trajando o severo uniforme colegial — a alva camisa de seda coroada pelo vistoso laçarote e a saia pregueada de comprimento até abaixo dos joelhos. No lar avoengo, Aleph fora a essência do afeto dos tios que ainda se mantinham solteiros e disputavam entre si o direito de assegurar ao sobrinho os folguedos como as secretas incursões e banhos nas Praias de Belém Novo ou Ipanema, na orla do lago-rio, segredo à noite desfeito pelo garoto que, na sua pueril simplicidade, tudo revelava à mãe, para vexame do audacioso tio. À vista disso, dali para diante, os passeios quando muito se limitavam a então glamorosa Rua da Praia. Para eternizar um desses momentos, elegantemente trajados, tio e sobrinho se deixaram fotografar sobre o calçamento de paralelepípedos de granito em mosaico róseo e gris.

Era a Rua da Praia o termômetro da cidade. No Grande Hotel, onde políticos se reuniam para engendrar a estratégia de governo, não raro eram vistos o Governador Ernesto Dornelles, os políticos Vitor Greff, João Caruso e até mesmo o General-Interventor, Flores da Cunha. Nos altos da sede do Clube do Comércio, ignorando a proibição institucional sancionada pelo ex-presidente Eurico Gaspar Dutra, propalavam-se dissimuladamente a roleta e o bacará para seleta casta de sócios. Aos amantes da boa música e das novidades da discografia internacional, a ida até a Casa Victor era imperiosa, como aos diletantes da literatura o universo mágico da Livraria do Globo e, às chiques e elegantes damas do high society, as luzes intensas das vitrines das Lojas Sloper, Casa Louro e da Pelaria Europeia. Essas mesmas mulheres, após se exibirem no gracioso promenadeflâner por aquelas afamadas calçadas encerravam a tarde com o chá das cinco, regado a amanteigadas torradas e tortas de indizíveis delícias na Confeitaria Central, Schramm ou Neugebauer. As mais resolutas se dispunham a subir a ladeira da Rua Dr. Flores até a Praça do Portão e se acomodarem nos requintados salões da Confeitaria Rocco. À noite reverberavam os imensos letreiros luminosos de gás néon anunciando os filmes em cartaz nos cinemas Guarani, Imperial, Cacique, Central e Ópera. Esse cosmos era alvo do voraz e assombrado olhar do pequeno Alephe do orgulho do galante tio. Anos mais tarde, nas matinês dos domingos daquelas mesmas salas de espetáculos, ante o olhar adolescente de Aleph, desfilariam, como se lhe provocassem obstinadamente as mais dissemelhantes emoções. Antes, porém, disso tudo acontecer…

…na terça-feira de um longínquo carnaval, a casa despertara silenciosamente triste. Os círios, postados em quatro grandes castiçais que lembravam a formação de uma guarda de honra, em torno do ataúde onde jazia o corpo da avó, foram acesos. Para Aleph a partida da avó e a despedida da casa onde nascera foram os primeiros e amargos sorvos do sentimento de perda. Dele e de todos os tios que preencheram os afetos em seus anos primeiros de vida. Meses depois, toda essa história estava prestes a ser deixada para trás. Iniciava-se o rito de passagem para Aleph e os pais: a mudança para o recém-construído prédio de apartamentos onde, doravante, seria contada uma nova história.

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