A Mestra

…reduzindo a cacos uma ou duas xícarasde porcelana antiga… O auditório da escola normal, apesar da chuva torrencial, encontrava-se superlotado. Quase toda a comunidade fora homenagear a professora brígida. Aos…
…reduzindo a cacos uma ou duas xícaras
de porcelana antiga…

O auditório da escola normal, apesar da chuva torrencial, encontrava-se superlotado. Quase toda a comunidade fora homenagear a professora brígida. Aos retardatários restou se acomodarem nos corredores. Para que todos os presentes pudessem ouvir os discursos, instalaram-se alto-falantes.

Foram cinquenta anos ininterruptos de doação e desprendimento, em que dona brígida apenas se afastara para dar à luz aos quatro filhos e a um natimorto. Refeita dos partos, retomava, sem tardanças, à sublime missão que escolhera. Quantas foram as gerações de santherminienses que passaram por suas mãos? À solenidade não faltaram os ex-alunos, mesmo aqueles que, alguns anos mais tarde, iriam se destacar no cenário das ciências, da política e da literatura nacional.

Mais sólido exemplo de intelectual, dona brígida era sempre vista com um livro e o exemplar do correio do povo nas mãos.  Lera, no original, «a la recherche du temp perdue», de marcel proust. Contavam as negras da casa de seu pai que a primeira e única vez que a jovem brígida entrara na cozinha fora com as intenções de preparar um café ao futuro pretendente à sua mão. Provocara uma verdadeira catástrofe doméstica, tisnando chaleiras, deixando o pó de café esfumar. Trocou o açúcar pelo sal e reduziu a cacos uma ou duas xícaras de porcelana antiga. Casou-se com taurino gonçalves aguila. Aos filhos ensinou as primeiras letras e mostrou-lhes o caminho da biblioteca.

Major taurino – assim ele passou a ser conhecido, após adquirir sua primeira gleba de terra –, insigne apreciador de “chinas”, de mesas de carteado e virtuoso bandoneonista, fora, na juventude, dono de uma espessa cabeleira, presa por uma vincha que lhe cingia a fronte e findava em dois fortes nós sobre o occipital. Conduzia tropa, parava rodeio e, dizia a lenda, quando plangia ao bandoneon melancólicas e apaixonadas milongas as madrugadas do lugar por onde apeasse eram invadidas pelos suspiros das moças às janelas do casario ou no alpendre dos ranchos mais recônditos. Capaz de doar um boi por um bom fandango, era valente e não levava desaforo para casa. Hábil no manejo da adaga, o jovem taurino impunha respeito. Conquistara a confiança do coronel moraes pereyra e, para iniciar a vida de casado com a jovem brígida, um dote que soube, em poucos anos, fazer prosperar.

Após a solenidade, dona brígida avistou o neto à sua frente. Agradeceu-lhe o buquê de flores-do-campo e quis saber o que o menino estava tramando desta feita. aleph egas aguila, um moleque muito vivo, cinco anos recém feitos, encorajou-se: ia ler um discurso que ele mesmo fizera. A avó mostrou mais do que surpresa, incredulidade, Discurso? Mal sabes as primeiras letras! O neto pôs o indicador entre as sobrancelhas, E a minha inteligência, vó? Ela é um lápis azul, do tamanho de uma bolita. Dona brígida achou graça. Sabia muito bem que aleph era inventivo, próprio de um futuro ficcionista, quem sabe, de um político falastrão e contador de história, hábil nos argumentos e promessas de campanhas. Absurda, no entanto, a definição de inteligência dada pelo menino. Os pereyra e os aguila eram muito inteligentes, perspicazes – não esquecendo, é claro, o lado materno do guri, afinal, não queria aborrecimentos com celina, sua nora –, e aleph não fugira à regra. A antiga professora beijou com ternura a testa do neto, e o moleque, após dar meia-volta, disparou para o palco. Diante do microfone, infelizmente ainda ligado, aleph pôs-se a transmitir, em meio a pachouchadas, uma fantástica carreira de potrancas em cancha reta.

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