Aqueles Dias

A palavra “crise” sempre traz apreensão. No mercado financeiro, o reflexo disso se dá pela alteração de humor e da instabilidade das posições e opiniões defendidas. Nós, do sexo masculino,…

A palavra “crise” sempre traz apreensão. No mercado financeiro, o reflexo disso se dá pela alteração de humor e da instabilidade das posições e opiniões defendidas.

Nós, do sexo masculino, costumeiramente reclamamos das mulheres quando reagem de forma inesperada, áspera, desconfiada, excessivamente sentimentalista, ou qualquer uma de suas mil faces no período chamado de “aqueles dias”. Estamos vendo, nas últimas semanas, as Bolsas ao redor do mundo reagirem aos mais diversos fatos, atos e boatos da mesma forma volátil que caracteriza as mulheres “naqueles dias”.

Fato é que vivemos uma “crise de referência”. Apesar de não querer comparar, o período pós-Guerra e pré-crise de 1929 foi marcado por um enorme avanço econômico norteamericano e o concomitante enfraquecimento da Inglaterra e de toda a Europa. Na esteira da reconstrução da Europa, emergiu uma economia dinâmica, capitalista, com pessoas que tinham por objetivo a construção de algo, desligadas de questões étnicas. Os EUA apresentaram ao mundo a possibilidade da construção em massa.

Na década de 20, cidades cresciam por todo o território americano. O carro-chefe de seu crescimento foi a indústria e a fábrica de automóveis. Logo a linha de produtos se desenvolveu para geladeiras, fogões, rádios, etc. E os produtos americanos foram amplamente exportados para a Europa. Os EUA entenderam que a crise na Europa era uma oportunidade de ouro e se aproveitaram disso.

Vivemos um momento de mudança de uma grande referência. Não estou dizendo que os EUA “acabaram”. O ponto é que, no mercado, sempre existe uma referência, um benchmarking. O dólar já não serve tão bem, da mesma forma que os títulos de dívida americanos, assim como os dados de atividade econômica nos EUA já não são claros o suficiente para indicar o que está por vir. O FED e as palavras do chairman do banco já são questionadas, e por aí vai. A Europa, que poderia ser uma substituta natural dos EUA, também enfrenta sérios problemas, tanto em seu sistema bancário, quanto na situação de dívida dos países e na limitada capacidade de fomentar o crescimento econômico.

Atualmente, o governo americano se encontra com menos folga para implementar tais políticas e tem ao seu lado uma Europa travada. Ou seja, o risco é de que a economia siga a tendência de um “L”, ou seja, uma forte desaceleração sem a retomada de atividade. É isso que tem sido discutido atualmente e que vem tirando o sono do mercado. É isso que gerou uma elevada instabilidade nos mercados ao longo da semana: o receio de que EUA e Europa se tornem um Japão, onde o crescimento econômico por muito tempo tirou férias. Mais que isso, existe ainda o medo e a dúvida de como o mundo lidará com a derrocada de suas referências.

O governo americano vem tentando implementar políticas de desenvolvimento e fomento à atividade. Assim como os países europeus, que vêm se organizando e arranjando do jeito que podem, tentando apagar os incêndios que aparecem. Mas, como no passado, isso leva tempo. Como diria o bilionário Warren Buffet, tempo é mais importante do que dinheiro, pois este vai e vem, ao passo que o tempo apenas vai. Por isso, o mercado anda mal humorado, instável, melindroso, parecendo estar “naqueles dias”.

A palavra “crise”, em chinês, é escrita com 2 ideogramas: um que simboliza perigo e outro que representa oportunidade. A China tem um longo horizonte de crescimento pautado no desenvolvimento de um mercado interno, como os EUA outrora tiveram. A China sabe que crise gera oportunidade. Portanto é hora de manter a calma e, assim como os chineses, focar no outro lado da situação, o das oportunidades!

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