Estamos descendo a ladeira – Erner Machado

O Titulo de meu modesto texto deste sábado, tem a pretensão de levar-nos a uma reflexão profunda e que, com certeza, reflete o sentimento de muitos brasileiros que olham para…
Erner Machado

O Titulo de meu modesto texto deste sábado, tem a pretensão de levar-nos a uma reflexão profunda e que, com certeza, reflete o sentimento de muitos brasileiros que olham para o passado com nostalgia e para o presente com uma sensação de vácuo.

       Esta constatação nos leva, inexoravelmente, a percepção de que estamos em um profundo e constante declínio cultural e institucional.

       Quando comparamos a era de ouro da Bossa Nova, a genialidade de Rui Barbosa, Machado de Assis, Oscar  Niemeyer, a precisão de Ayrton Senna, o pioneirismo de Carlos Chagas ou o brilho de Pelé com o cenário atual, o sentimento de “downgrade” (uma perda de patamar) é inevitável.

       Viver no Brasil do século XXI traz, para muitos, a incômoda sensação de estarmos testemunhando um empobrecimento sistêmico em nossa produção humana, cultural e institucional.

       O termo downgrade, emprestado do Inglês, serve para indicar o rebaixamento de uma versão superior para uma inferior, ilustra com precisão o sentimento de que o país perdeu a capacidade de gestar os gigantes que outrora orgulhavam a nação e influenciavam o mundo.

       A ausência de grandes referências proeminentes manifesta-se em múltiplos setores da nossa sociedade.

       Para justificar as questões mencionadas acima e para tonar o texto mais objetivo me permito elencar as áreas que, segundo o meu entendimento, estão sendo objeto de degradação.

  • Música e Regência: Onde outrora tivemos a sofisticação harmônica de Tom Jobim e a genialidade erudita de Villa-Lobos, hoje a indústria cultural prioriza o imediatismo comercial e fórmulas repetitivas, carecendo de maestros e cantores com relevância global e profundidade artística.
  • Arquitetura e Pensamento Urbano: O país que exportou o modernismo de Oscar Niemeyer e o urbanismo de Lúcio Costa hoje assiste a uma padronização imobiliária sem identidade e a uma visível incapacidade de planejar suas metrópoles de forma sustentável e humana.
  • O Esporte de Alto Rendimento: A perda de protagonismo na Fórmula 1 — outrora marcada pelo DNA vencedor de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna — e a escassez de “Camisas 10” incontestáveis no futebol, que simbolizem a liderança e a genialidade de Pelé, Garrincha ou Zico, revelam uma crise na formação de talentos de elite.
  • Ciência e Medicina: O Brasil de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e, mais recentemente, de cirurgiões pioneiros como Euryclides de Jesus Zerbini, hoje enfrenta uma severa “fuga de cérebros”.

Cientistas e médicos brilhantes continuam existindo, mas a falta de infraestrutura e de incentivo estatal faz com que suas grandes descobertas ocorram fora do país ou fiquem asfixiadas pela burocracia.

  • Pensamento Econômico: O debate macroeconômico nacional parece ter se aprisionado em dogmas e disputas político-partidárias, carecendo de grandes formuladores que desenhem soluções estruturais e inovadoras para a produtividade, a desindustrialização e o crescimento sustentável a longo prazo.
  • Liderança e Homens de Estado: A política nacional sofreu uma visível perda de estatura intelectual e moral. Independentemente de ideologias, o cenário atual carece de grandes tribunos, estadistas e diplomatas capazes de pensar o Brasil para as próximas gerações, substituídos por uma lógica de imediatismo digital, polarização e personalismo.

       Para além dos pontos já diagnosticados, é possível      identificar outras áreas críticas que reforçam essa    sensação de rebaixamento coletivo:

  • A Crise de Autoridade Intelectual e Literária: O Brasil já foi o país de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e de críticos como Antônio Candido. Hoje, o debate público e a literatura nacional carecem de vozes que consigam traduzir a alma do país com o mesmo peso e respeito universal. Os intelectuais públicos foram, em grande parte, substituídos por influenciadores digitais.
  • O Sucateamento da Educação Básica e Civilidade: A base de qualquer grande nação é a educação. O declínio na qualidade do ensino público básico gerou um efeito cascata: a perda do pensamento crítico, o aumento do analfabetismo funcional e a erosão das noções básicas de cidadania e civilidade no cotidiano.
  • A Fragilidade do Planejamento de Longo Prazo: O Brasil transformou-se no país do curto prazo. Seja na infraestrutura, na gestão ambiental ou na segurança pública, perdeu-se a capacidade técnica e política de formular projetos de Estado que durem décadas, vivendo-se em um eterno ciclo de improvisação.

        Para concluir resta-nos, felizmente, a certeza de que este panorama não significa que o brasileiro perdeu seu talento ou sua capacidade de trabalho.

Significa, sim, que o sistema atual do país nos níveis — institucional, educacional e cultural — tornou-se hostil ao florescimento da excelência.

       O downgrade, portanto, não é da capacidade do nosso povo, mas sim das estruturas que deveriam lapidar e projetar nossos grandes talentos para o mundo.

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