Uma escola de samba, uma homenagem, um presidente – Erner Machado

UMA ESCOLA DE SAMBA, UMA HOMENAGEM, UM PRESIDENTE (Da série me metendo em briga de cachorro grande)          A utilização de recursos públicos para financiar uma escola de samba com…
Erner Machado

UMA ESCOLA DE SAMBA, UMA HOMENAGEM, UM PRESIDENTE

(Da série me metendo em briga de cachorro grande)

         A utilização de recursos públicos para financiar uma escola de samba com a finalidade explícita de homenagear o presidente da República levanta um debate sério — não apenas político, mas moral e institucional.

         O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil. As escolas de samba, especialmente no Rio de Janeiro, são patrimônio simbólico do povo, espaços de crítica, arte e manifestação popular.

         Quando o Estado injeta recursos públicos com o propósito de promover a imagem de quem está no poder, instala-se um paradoxo inquietante: o dinheiro do contribuinte passa a ser instrumento de exaltação pessoal de um governante.

         Isso fere um princípio básico da administração pública: a impessoalidade.

         O Estado não pertence ao presidente.

         O orçamento não é propriedade do governo da vez.

         Cada centavo vem do trabalhador, do empresário, do aposentado — de um país que enfrenta dificuldades fiscais, serviços públicos precários, filas na saúde, déficits educacionais e insegurança crescente.

         Há ainda uma dimensão simbólica grave.

         O Carnaval sempre foi espaço de crítica social — inclusive contra governos.

         Quando o poder público financia uma homenagem oficial ao próprio chefe do Executivo, o que deveria ser manifestação cultural livre corre o risco de se transformar em peça de propaganda indireta.

         Não se trata de negar apoio à cultura.

         Pelo contrário: o Estado deve fomentar a cultura. Mas fomentar cultura é apoiar a diversidade, a crítica, a arte livre — não patrocinar elogios ao governante de turno.

         Num país que luta contra desigualdades estruturais e crises fiscais recorrentes, a prioridade deveria ser transparência, responsabilidade e respeito ao contribuinte.

         Quando recursos públicos são associados à promoção pessoal de autoridades, a sociedade tem o direito — e o dever — de questionar.

         Democracia exige limites.

          E o primeiro deles é lembrar que governo não é sinônimo de Estado — e Estado não pode ser instrumento de autopromoção política.

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