UMA ESCOLA DE SAMBA, UMA HOMENAGEM, UM PRESIDENTE
(Da série me metendo em briga de cachorro grande)
A utilização de recursos públicos para financiar uma escola de samba com a finalidade explícita de homenagear o presidente da República levanta um debate sério — não apenas político, mas moral e institucional.
O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil. As escolas de samba, especialmente no Rio de Janeiro, são patrimônio simbólico do povo, espaços de crítica, arte e manifestação popular.
Quando o Estado injeta recursos públicos com o propósito de promover a imagem de quem está no poder, instala-se um paradoxo inquietante: o dinheiro do contribuinte passa a ser instrumento de exaltação pessoal de um governante.
Isso fere um princípio básico da administração pública: a impessoalidade.
O Estado não pertence ao presidente.
O orçamento não é propriedade do governo da vez.
Cada centavo vem do trabalhador, do empresário, do aposentado — de um país que enfrenta dificuldades fiscais, serviços públicos precários, filas na saúde, déficits educacionais e insegurança crescente.
Há ainda uma dimensão simbólica grave.
O Carnaval sempre foi espaço de crítica social — inclusive contra governos.
Quando o poder público financia uma homenagem oficial ao próprio chefe do Executivo, o que deveria ser manifestação cultural livre corre o risco de se transformar em peça de propaganda indireta.
Não se trata de negar apoio à cultura.
Pelo contrário: o Estado deve fomentar a cultura. Mas fomentar cultura é apoiar a diversidade, a crítica, a arte livre — não patrocinar elogios ao governante de turno.
Num país que luta contra desigualdades estruturais e crises fiscais recorrentes, a prioridade deveria ser transparência, responsabilidade e respeito ao contribuinte.
Quando recursos públicos são associados à promoção pessoal de autoridades, a sociedade tem o direito — e o dever — de questionar.
Democracia exige limites.
E o primeiro deles é lembrar que governo não é sinônimo de Estado — e Estado não pode ser instrumento de autopromoção política.





















