Na curadoria do guarda-roupa masculino contemporâneo, poucas categorias evoluíram tanto quanto o tricot. Historicamente relegada ao inverno e vista como uma camada puramente funcional para aquecer, a malharia (ou knitwear) assumiu um novo protagonismo.
Ela se tornou a principal ferramenta para adicionar textura, profundidade e um senso de sofisticação descontraída ao visual, alinhando-se perfeitamente à ascensão do “quiet luxury” (luxo silencioso).
O homem moderno, que preza pela elegância, descobriu que o tricot é a ponte perfeita entre a rigidez da alfaiataria tradicional e o conforto do casual. Para o público que busca informações ricas e detalhadas, entender as nuances de fibras, gramaturas e cortes é o que permite desbloquear o verdadeiro potencial desta peça.
A fundação da qualidade: a importância da matéria-prima
A qualidade de um tricot é definida, antes de tudo, pela sua fibra. A escolha do material dita o toque, o caimento, a capacidade de isolamento térmico e a durabilidade da peça.
A Lã Merino é considerada o material de performance da natureza. Suas fibras são excepcionalmente finas (uma fração da lã tradicional), o que a torna macia ao toque e elimina a sensação de “pinicar”. Sua principal vantagem é a termorregulação: ela isola o calor no frio, mas também é altamente respirável no calor, além de possuir propriedades antimicrobianas naturais, que reduzem odores.
A Caxemira (Cashmere) é o padrão-ouro do luxo. Proveniente da subpelagem da cabra da Caxemira, sua fibra é incrivelmente leve, oferecendo um isolamento térmico até oito vezes superior ao da lã comum, com uma maciez incomparável. É a definição do “luxo silencioso” — um investimento em conforto sensorial.
O Algodão é a fibra de eleição para o clima brasileiro. Malhas de algodão, especialmente de fibras longas como o Pima, são respiráveis, leves e ideais para a meia-estação ou noites de verão. É neste material que as polos de tricot e os suéteres mais leves encontram sua melhor expressão.
O pilar do guarda-roupa: o suéter de gola redonda (Crew Neck)
A peça mais versátil e fundamental do arsenal de tricot é o suéter de gola redonda. Sua simplicidade é sua maior força. Um modelo de gramatura fina ou média, em uma cor neutra (marinho, cinza, preto ou bege), funciona em praticamente todos os cenários.
Pode ser usado de forma casual sobre uma camiseta básica com jeans e tênis de couro. Em um ambiente smart casual, ele substitui a camisa: usado diretamente sobre a pele (se a fibra for nobre, como a merino fina) ou sobre uma camiseta, combinado com uma calça de alfaiataria e um blazer. Ele oferece uma textura mais rica e moderna do que a tradicional camisa social.
A sofisticação do “arquiteto”: a gola alta (Turtleneck)
A gola alta, ou turtleneck, deixou para trás qualquer conotação datada para se tornar um símbolo de sofisticação intelectual e design minimalista. Ela é, talvez, a peça que mais demonstra confiança no estilo. Em tons escuros (preto ou marinho), uma gola alta de malha fina (como a merino) funciona como um substituto moderno e poderoso para a camisa e gravata sob um costume (terno).
Para um visual mais descontraído, mas ainda incrivelmente elegante, a gola alta é a parceira ideal para uma jaqueta de couro ou um blazer de lã mais pesado, criando um look high-low que transita perfeitamente entre o criativo e o corporativo.
A ponte “smart casual”: a ascensão da camisa polo em tricot
O mercado viu uma explosão na popularidade da polo em tricot, e a razão é clara: ela resolve o dilema do smart casual de verão. A camisa polo tradicional, em malha piquet, carrega uma conotação fundamentalmente esportiva. A polo em tricot, por outro lado, muda completamente essa percepção.
Feita geralmente em algodão de alta torção ou misturas com seda, ela tem um caimento mais fluido, um colarinho mais estruturado (muitas vezes o camp collar, ou colarinho cubano) e uma textura que a aproxima de uma peça de alfaiataria.
A camisa tricot masculina é a resposta para o homem que precisa estar elegante em um evento diurno ou em um escritório com código flexível, mas não quer usar uma camisa social de manga longa. Ela é, hoje, a tradução mais precisa da elegância descontraída.
O novo blazer: o cardigã como peça de sobreposição
O cardigã também foi resgatado e reposicionado. A peça, antes associada a um visual acadêmico ou antiquado, tornou-se a “terceira peça” (substituta do blazer) mais funcional do guarda-roupa. A tendência se afastou dos cardigãs finos de botões pequenos e se concentrou em duas silhuetas: o cardigã com gola xale (shawl collar) e o cardigã de botões pesados (heavy-gauge).
Esses modelos, feitos em lãs mais robustas ou algodão grosso, têm a estrutura e o peso de uma jaqueta leve. Usados sobre uma camiseta ou uma camisa leve, eles adicionam uma camada de sofisticação e conforto térmico sem a formalidade de um blazer, sendo ideais para o home office ou para um jantar casual.
A manutenção: como proteger seu investimento
Peças de tricot de alta qualidade exigem um cuidado específico para garantir sua longevidade. A regra mais importante é: jamais pendure um suéter ou tricot em um cabide. O peso da peça, especialmente quando em lã ou caxemira, fará com que a gravidade estique as fibras e deforme permanentemente a área dos ombros.
A forma correta de guardar é dobrado e deitado em uma prateleira ou gaveta. A lavagem também é crítica: fibras nobres como lã e caxemira devem ser lavadas à mão, com água fria e sabão neutro, sem torcer. Sua secagem deve ser feita na horizontal, sobre uma toalha, longe do sol, para que a peça não perca sua forma.
Ao final, o tricot se revela como o componente mais subestimado e, ao mesmo tempo, mais versátil do estilo masculino moderno. Sua capacidade de adicionar textura, profundidade e uma sensação de luxo tátil é o que o torna indispensável para o homem que preza pela elegância.
O investimento em fibras de qualidade e o entendimento de como cada peça — da polo ao cardigã — funciona em um look, é o que permite a construção de um visual sofisticado. Dominar o uso do tricot é dominar a arte de parecer elegante e confortável ao mesmo tempo, uma das maiores demandas do homem contemporâneo.




















