Tornados no RS
A combinação de ingredientes meteorológicos típicos do Cone Sul, associada ao encontro de massas de ar de características opostas, faz do território gaúcho um ponto-chave para a geração de tornados, alguns deles potencialmente violentos.
Pesquisas recentes mostram que, embora o assunto ainda seja pouco discutido no Brasil, o país é o segundo mais suscetível do mundo a registrar o fenômeno, atrás somente da região central dos Estados Unidos.
🌪️ O que caracteriza um tornado e por que ele causa tanta destruição
Ao contrário de furacões e tufões, que se formam sobre os oceanos, os tornados surgem a partir de tempestades intensas em terra firme.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional descreve o fenômeno como uma coluna de ar que gira violentamente e, ao tocar o solo, pode percorrer vários quilômetros deixando rastros de devastação.
A formação de um tornado acontece quando correntes turbulentas interagem com quedas bruscas de temperatura no interior das nuvens.
Quando esses ventos rotacionais se alinham verticalmente, o funil se organiza, se afunila e, nas condições ideais, toca o solo com força suficiente para arrancar telhados, destruir casas, arremessar objetos pesados e provocar vítimas.
🌍 Brasil é o 2º país mais suscetível a tornados no mundo
Apesar de a população associar tornados a outros países, como os Estados Unidos, o Brasil ocupa uma posição surpreendente no ranking mundial de suscetibilidade.
Um estudo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado em 2020, revelou que o território brasileiro apresenta o segundo maior número de dias com condições favoráveis para a formação desses sistemas — atrás apenas da região central norte-americana.
Segundo o meteorologista e pesquisador da UFSM, Murilo Lopes, o Brasil não tem a mesma frequência de tornados dos EUA, mas suas condições atmosféricas se repetem com intensidade suficiente especialmente em certas regiões.
“Temos um cenário muito particular. Mesmo com menor ocorrência, há dias suficientes com a atmosfera preparada para gerar tornados, especialmente no Sul do Brasil”, afirma Lopes.
A área mais susceptível abrange o Sul, partes do Mato Grosso do Sul e trechos de São Paulo.
Porém, dentro desse grande território, a maior concentração se dá em uma faixa específica que inclui o norte do RS, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná — a área que especialistas chamam de núcleo do corredor de tornados brasileiro.
🌪️ Tornados no RS: estado é o número 1 em ocorrências no Brasil
Dados levantados pela UFSM mostram que o Rio Grande do Sul registrou 67 tornados entre 1967 e 2019, número superior a qualquer outro estado brasileiro, consolidando-o como o mais atingido do país.
A geografia e a posição estratégica no continente tornam o RS especialmente vulnerável.
Murilo Lopes explica que a área mais crítica se estende pelo norte gaúcho, oeste catarinense e sudoeste paranaense, região onde ocorre a sobreposição mais intensa dos ingredientes necessários para gerar tempestades extremas.
Essas supercélulas exigem um ingrediente fundamental: cisalhamento do vento, que significa uma rápida mudança na direção e velocidade do ar ao longo da altitude.
Esse mecanismo é disparado quando o ar quente e úmido vindo da Amazônia se encontra com o ar frio e seco proveniente do Sul.
O resultado é um ambiente explosivo, altamente instável, capaz de produzir desde tornados fracos — os mais comuns — até episódios raros de tornados violentos, com ventos acima de 260 km/h, como os que ocorreram no Paraná neste mês.
🌎 A influência dos países vizinhos e a zona crítica da América do Sul
A suscetibilidade do Sul do Brasil a tornados não acontece isoladamente.
Toda a faixa que inclui o centro-sul do Paraguai, parte do Uruguai e o centro-norte da Argentina apresenta condições atmosféricas semelhantes, favorecendo a formação anual de tempestades severas.
Na prática, essa grande área de instabilidade atua como um corredor natural de tempestades, que frequentemente avançam para o território gaúcho com força total, potencializando os riscos.
🔍 Por que o RS concentra tanto risco?
Ingredientes atmosféricos que explicam o fenômeno:
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Transporte de ar quente e úmido da Amazônia
Intensifica a instabilidade e alimenta as tempestades. -
Entrada de ar frio do sul do continente
Cria contraste térmico explosivo em vários níveis da atmosfera. -
Cisalhamento de vento
Fator decisivo para a formação de supercélulas rotativas. -
Geografia da região Sul
Facilita o encontro dessas massas de ar e acelera a dinâmica dos sistemas.
O resultado é uma combinação rara, comparável apenas à região central dos Estados Unidos.

🧭 Conclusão: tendência é de mais estudos e mais alertas
Com o avanço da ciência e o aumento de sistemas de monitoramento meteorológico, pesquisadores acreditam que o número de registros deve continuar crescendo, não necessariamente pela maior ocorrência de tornados, mas pela melhoria na detecção dos fenômenos.
Para especialistas, o melhor caminho é ampliar o acesso à informação e reforçar sistemas de alerta antecipado, especialmente no Rio Grande do Sul — o epicentro do corredor de tornados brasileiro.





















