Pesca com botos é reconhecida como patrimônio cultural do Brasil

A pesca com botos no Sul do Brasil foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural pelo Iphan. A decisão reforça a importância de um exemplo de cooperação entre humanos e animais…
Pesca com botos

A pesca com botos no Sul do Brasil foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural pelo Iphan. A decisão reforça a importância de um exemplo de cooperação entre humanos e animais — uma prática centenária que ocorre em estuários do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

O reconhecimento foi aprovado durante a 112ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O registro inscreve a prática no Livro dos Saberes, categoria dedicada a conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

Por que a pesca com botos foi reconhecida como patrimônio

Pesca com botos
Dossiê de registro/Iphan/Divulgação

O parecer técnico destacou três fatores principais para o registro:

  • Profunda relação histórica entre pescadores e botos no litoral sul do Brasil
  • Complexa interação socioecológica entre humanos, fauna e ambiente
  • Transmissão de conhecimento tradicional entre gerações de pescadores

Segundo o relatório apresentado ao conselho, a prática representa um exemplo de cooperação espontânea entre espécies, em que os animais ajudam os pescadores a localizar e encurralar cardumes.

Como funciona a pesca cooperativa entre pescadores e botos

Pesca com botos
Dossiê do registro/Iphan/Divulgação

A pesca ocorre principalmente durante o outono, entre maio e julho, quando os pescadores se posicionam nas margens dos estuários aguardando o comportamento dos botos.

O processo segue uma sequência precisa:

  • Os botos conduzem os cardumes em direção à margem
  • Quando o peixe está concentrado, o boto realiza um salto ou movimento específico
  • Esse gesto funciona como um sinal para os pescadores lançarem as tarrafas

A prática exige experiência e leitura detalhada do ambiente natural, incluindo:

  • Movimento das marés
  • Direção dos ventos
  • Comportamento dos botos e peixes

Onde essa prática acontece no Sul do Brasil

A pesca cooperativa ocorre em quatro sistemas estuarinos entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul:

Entre esses locais, Laguna e a foz do Rio Tramandaí são considerados os pontos com maior frequência dessa interação entre pescadores e botos.

Botos têm nomes e são tratados como parte da comunidade

Diferente de uma interação ocasional com animais selvagens, os pescadores reconhecem cada boto individualmente.

Os animais recebem nomes baseados em características físicas ou comportamentais, como:

  • Borracha
  • Princesa
  • Jade
  • Fúria
  • Natalino
  • Cabeça-Feia
  • Pomba

Segundo pescadores da região, a morte de um desses animais costuma gerar grande comoção nas comunidades.

Casos como o do boto Lobisomem e da fêmea Caroba mobilizaram moradores e levaram inclusive à criação de um santuário em homenagem aos animais.

Espécie de boto usada na pesca está ameaçada

A pesca cooperativa envolve principalmente o boto-de-Lahille, espécie que habita o litoral sul do Brasil.

Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o animal de “vulnerável” para “em perigo de extinção”.

Estima-se que existam cerca de 330 indivíduos da espécie no mundo, a maioria no litoral sul do Brasil.

Em resumo

O que é a pesca com botos?

É uma prática tradicional em que botos ajudam pescadores a localizar cardumes, sinalizando o momento exato de lançar as redes.

Onde essa pesca acontece?

Principalmente em Laguna (SC) e na foz do Rio Tramandaí (RS), além de outros estuários entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Por que o reconhecimento é importante?

Ele valoriza o conhecimento tradicional das comunidades e pode fortalecer políticas de proteção ambiental e cultural.

Receba as principais notícias no seu WhatsApp

 

Amanda da Silveira Ferrari é estudante de Jornalismo pela UNISINOS, com experiência em produção de conteúdo, jornalismo de dados e comunicação pública.

Notícias relacionadas

Pesca com botos