A imensa bola de fogo por trás da linha do horizonte, metade do seu corpo mergulhado, parecia incendiar as águas oceânicas àquela hora crepuscular.
Meus pensamentos, em torvelinho, vagavam entre o escutar o bramido das ondas na rebentação e o ronco distante do motor de um pequeno avião, tão distante quanto invisível.
Foi aí, a uma distância de trinta metros à minha frente, que eu o avistei. Ele se desfazia do abrigo de moletom e dos tênis. Ao aproximar-me do homem — espantoso! — eu parecia estar à frente de um espelho.
O espelho moveu levemente a cabeça, à guisa de uma saudação. Havia uma tristeza compassiva no seu olhar. Segui na minha caminhada, estupefato com a estranheza do refletido no irreal espelho.
Ao fazer o caminho de volta, percebi as roupas das quais o homem se desfizera. Dele não havia vestígio algum. Alonguei o olhar para as águas inusitadamente plácidas. Sequer havia o ruído do invisível aviãozinho.
A bola de fogo mostrava-se por inteira. Busquei novamente avistar onde estaria o homem. Sobre o abrigo de moletom, tremulava uma antiga folha de papel para cartas com os dizeres escritos por uma mão certamente trêmula:
“O ser humano não morre quando o coração deixa de bater. Morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante.
Eu não desejava morrer. Eu queria era matar a minha dor….”.


















