O Coronel

…morreu nos campos de batalha, perfuradopor três lanças paraguaias… Frei marcelino entrou nos aposentos do coronel. Embaraçado, pediu desculpas à senhora por molhar o oleado do piso de nobre cerejeira,…
…morreu nos campos de batalha, perfurado
por três lanças paraguaias…

Frei marcelino entrou nos aposentos do coronel. Embaraçado, pediu desculpas à senhora por molhar o oleado do piso de nobre cerejeira, chegara de uruguaiana não fazia muito, mal tivera tempo de ajeitar o de seu, Chove há bastante tempo, estou certo, senhora?  Desde o dia sete de abril, exatamente no dia em que meu marido se acamou.

À cabeceira do coronel, dona concha velava o marido. Ela cuidou que o frade não se cerimoniasse. Imaginava as dificuldades de uma viagem até santherminia, ainda mais com aquele tempo, o ibirapuitan cheio como estava. Nunca soubera de algo igual. De que padece o coronel? – este era frei marcelino. O enfermo espantou uma mosca imaginária e dirigiu o olhar, não sem um ricto de desconforto, em direção de onde partira a voz do religioso, Melhor perguntar do que não sofro, padre… Um câncer na próstata e escorbuto… Isto é justo?

A joão Moraes pereyra, proprietário de três estâncias, com dezenas de léguas de campos, não bastaram os quatro casamentos de papel passado e com as pompas e circunstâncias a que cada um tivera direito; povoara ranchos e taperas da região, até quarai. Sua primeira mulher, dona francisca augusta, morrera um ano após as bodas, durante o parto prematuro de gêmeas. As mucamas amamentaram as irmãs com leite de cabra. Em três semanas, as recém-nascidas adquiriram peso, e o berreiro das meninas já era ouvido nos galpões. Algum tempo depois, josé antônio, o último irmão do coronel moraes pereyra, fizera-lhe um pedido: como era costume antanho, cabia ao pai do pretendente ou, na falta do primeiro, a um padrinho por este delegado, a incumbência de formalizar perante o futuro sogro o compromisso de bodas.  Coube ao coronel, em nome do irmão, a honra de pedir em casamento anunciação das mercês, filha do farmacêutico miguel secundo. Secundo havia saído de corrientes e se estabelecera com uma próspera botica em alegrete. O coronel, mal pusera os olhos sobre a jovem anunciação, quedou-se ante a beleza exótica da correntina. Com a voz embargada pela inesperada e avassaladora paixão de que fora acometido, não titubeou em tomá-la como sua própria esposa. Anunciação das mercês gerou-lhe doze filhos, dentre os quais brígida, a professora a quem a comunidade de santherminia, naquele momento, rendia suas homenagens. Morta a segunda esposa, o coronel moraes pereyra entendeu ser prematuro enclausurar-se na condição de viúvo. A terceira, cora, não lhe deixaria herdeiros. Casaram-se quando o outono do conturbado ano de mil novecentos e quatorze já desprendera todas as folhas da vegetação. Nas gélidas manhãs, enquanto durara o inverno, a jovem esposa abandonava,  sorrateira, o leito nupcial e se dirigia à praiazinha.  Nas grandes pedras que margeavam o rio, úmidas pelo orvalho matinal, cora despia a alva camisola e se encaminhava, lentamente, na direção das águas, onde submergia; depois, voltava à tona e, sem dar mostras de qualquer reação à ínfima temperatura ou aos olhares devassos do gentio ribeirinho, cumpria o estranho ritual de exorcismo: esfregava, com sofreguidão, a genitália.  Quando a luz da manhã primeira  da  primavera rompeu o espaço, fez gemer a terra e espreguiçar os gerânios e os girassóis, morreu de tísica. Nos últimos sete dias de vida, parira sete vezes trezentos e setenta e três peixinhos prateados, enquanto vomitava pedaços dos pulmões envoltos pelo húmus do rio. Anos mais tarde, na solenidade de posse da filha brígida como diretora da escola normal, o coronel moraes ocupava lugar de honra na mesa ricamente ornamentada com guirlandas. Do palco do auditório, ele podia divisar a plateia, composta de álacres e buliçosas estudantes. Fora ali, alheio aos prolegômenos e aos palavrórios dos discursadores, que ele, já beirando os sessenta, a observou os olhos, de tão azuis, pareciam ofuscar  a quem se atrevesse afrontá-los, a franja loira sobre a longa testa e os lábios carmesins que os grandes e alvos dentes insistiam mordiscar, concha alvarez. No viço dos seus dezesseis anos, conchita lhe dera o último rebento.

Os cabelos brancos e ralos, e o nariz adunco do coronel lembravam a frei marcelino um judeu albanês. Tentou confortar o doente, São os desígnios do senhor, coronel. O câncer é a amarga recordação de um doce passado – o coronel quis ser sardônico –. Noventa e quatro anos nos costados, pai de quinze legítimos e outros tantos bastardinhos, já perdi a conta dos não oficializados. Percebeu o constrangimento do franciscano, Não se peje, meu padre, não faço segredo disso. Não só pra cada legítimo meu que casava, dei de boa vontade o quinhãozinho de terra pros naturais que vieram demandar o de direito, nisso a minha consciência está em paz. O doente fez uma longa pausa. Agora se mostrava sério, contemplativo, Não acho justo muita propriedade nas mãos de um só, a terra é pra ser dividida pra quem quer plantar ou criar rebanho. Tossia dolorosamente entre uma frase e outra, O padre não acha que dei exemplo prum monte de filhos-da-mãe que andam por aí, a erva braba comendo matando a terra, os campos improdutivos, mas eles não levantam os moirões pra quem quer trabalhar. Le digo uma coisa: essa mesquinharia não vai resolver nada! Um dia, aqueles que não têm terra pra produzir alguma coisa, entram de roldão e tomam à força, pode escrever isso, padre.

Em verdade, o religioso não estava envergonhado. Constrangia-lhe a alma o desmedido conflito entre os dogmas da igreja e as incontáveis situações de adultério, e os consequentes frutos destas, cometidos por joão Moraes pereyra. Segundo os cânones, a relação adulterina é um atentado aos mandamentos do divino criador, passível, até, de excomunhão. Assim, poderia ele, sem qualquer embargo às leis celestiais, ungir o enfermo com os últimos sacramentos de sua igreja?  Por outro lado, o coronel dava provas de ser um homem dotado de um extremo senso de justiça e generosidade. Os minutos pareceram ao frade conter o peso de séculos. Transpirava e as gotas do suor confundiam-se com as da chuva que ainda escorriam pelos cabelos e faces. À sua frente, jazia um homem a quem os males contraídos não se apiedaram em permitir-lhe sequer os últimos resquícios da dignidade. Cerrou os olhos e, em tom resoluto, determinou, Poupe-se, coronel, ouçamos as palavras de deus, através de seu único filho, jesus cristo, nosso senhor. Elas são o bálsamo para o nosso espírito sofredor.

O orgulho do moribundo ainda se fazia marcante, O seu deus que me desculpe, não sou homem de frescuras. E, depois, quem lhe chamou foi a conchita. Sou duro pra me entregar, já me basta o castigo de saber que vou morrer em cima de uma cama. Lhe garanto, meu bom padre, muito vivente ainda se vai antes de mim. A resignação do religioso também era grande, É da vida, coronel. Da vida nada, padre – tomou novo fôlego, Tenho um filho médico que todas as manhãs se dá ao trabalho de vir lá do alegrete e me enterra de duas a três injeções – tornou a resfolegar. Foi com muito esforço que completou, Que deboche! Meu pai morreu nos campos de batalha, perfurado por três lanças paraguaias no peito – fez um esgar de dor – e eu com a bunda que é uma peneira, das injeções do doutor ernestinho moraes… Foi acometido por uma hemoptise.

Sete dias após ter dito confissão e, assim, recebido a unção dos enfermos, o coronel entrou em coma.

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