O ciclo menstrual é um dos principais indicadores da saúde feminina. Embora muitas mulheres acreditem que a menstruação precisa acontecer exatamente no mesmo dia ou a cada 28 dias, pequenas variações são consideradas normais. Ainda assim, mudanças frequentes podem ser um sinal de que algo merece atenção.
A pesquisa “Real-world menstrual cycle characteristics of more than 600,000 menstrual cycles”, publicada na revista científica NPJ Digital Medicine, do grupo Nature, analisou dados de mais de 600 mil ciclos menstruais registrados por cerca de 124 mil usuárias de aplicativos de monitoramento e mostrou que a variação do ciclo é mais comum do que se imagina.
No estudo, o ciclo médio foi de aproximadamente 29 dias, com grande variabilidade entre as participantes. A pesquisa também identificou que muitas mulheres apresentam oscilações naturais no intervalo entre as menstruações ao longo do tempo, reforçando que a ideia de um ciclo fixo de 28 dias não representa a realidade da maioria da população feminina.
“De forma geral, consideramos regular o ciclo menstrual que ocorre em intervalos de 21 a 35 dias. Pequenas variações podem acontecer ao longo da vida e nem sempre indicam um problema. No entanto, quando as alterações passam a ser frequentes, como atrasos recorrentes, ciclos muito irregulares ou ausência de menstruação por vários meses, sempre é importante procurar avaliação médica para investigar as possíveis causas”, explica Adriana Bittencourt Campaner, ginecologista e médica colposcopista da Dasa e do Alta Diagnósticos, marca premium da Dasa, empresa de medicina diagnóstica.
Causas da menstruação irregular
O que muitas pessoas conhecem como menstruação irregular é classificado tecnicamente como sangramento uterino anormal, uma condição que pode surgir em diferentes fases da vida da mulher. De acordo com Jaime Kulak, ginecologista do laboratório Frischmann Aisengart, em Curitiba, as causas são geralmente divididas entre fatores hormonais: disfunções na tireoide, síndrome dos ovários policísticos (SOP) e as transições da puberdade ou menopausa; e causas anatômicas, ligadas a estruturas como pólipos, miomas e endometriose.
“Essas variações podem ter origens diversas, desde desequilíbrios hormonais até questões estruturais no útero. Em casos mais raros, é fundamental investigar também causas hematológicas, como distúrbios de coagulação, que podem impactar diretamente o padrão do fluxo menstrual”, explica o médico, que acrescenta: “Observar alterações no ciclo menstrual pode ajudar a identificar precocemente possíveis alterações hormonais ou ginecológicas […]”.
Fatores que afetam o ciclo menstrual
A seguir, os médicos listam fatores que podem influenciar o ciclo menstrual. Confira:
1. Estresse pode atrasar a menstruação
Situações de estresse intenso podem interferir na produção hormonal e alterar temporariamente o ciclo menstrual.
2. Mudanças no peso corporal também impactam o ciclo
Ganhos ou perdas de peso superiores a 5% a 10% do peso corporal em poucos meses (cerca de 3 a 6 meses) podem afetar o equilíbrio hormonal e provocar irregularidades menstruais. Isso ocorre porque alterações rápidas na composição corporal influenciam a produção de hormônios como estrogênio e leptina, que participam da regulação do ciclo menstrual. Por esse motivo, tanto a perda de peso muito acelerada quanto o ganho rápido de peso podem interferir na regularidade da menstruação.
3. A SOP é uma causa comum de irregularidade no ciclo menstrual
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma das condições ginecológicas mais frequentemente associada a ciclos menstruais irregulares, podendo causar atrasos frequentes ou ausência de menstruação. “Para investigar a síndrome dos ovários policísticos, os exames de imagem são fundamentais. Com a ultrassonografia transvaginal, conseguimos avaliar com precisão o volume ovariano e a presença de pequenos folículos no órgão”, explica Martha Calvente, ginecologista da CDPI e do Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro.
Ela detalha que o exame de imagem é fundamental para o diagnóstico completo. “Mais do que apenas identificar os ‘cistos’, a imagem nos permite excluir outras patologias e monitorar a resposta do endométrio às oscilações hormonais típicas da SOP, garantindo um acompanhamento seguro e personalizado para a saúde reprodutiva e metabólica da mulher”.
4. Alterações da tireoide podem interferir na menstruação
Problemas na tireoide também podem impactar o funcionamento hormonal e alterar a regularidade do ciclo menstrual. Condições como hipotireoidismo e hipertireoidismo podem provocar alterações na frequência ou intensidade da menstruação.
Por isso, quando há suspeita de disfunção tireoidiana, exames laboratoriais que avaliam hormônios como TSH, T3 e T4 são fundamentais para investigar a causa das irregularidades e orientar o tratamento.
5. Anticoncepcionais podem mudar o padrão menstrual
A introdução ou troca de métodos contraceptivos hormonais pode provocar mudanças temporárias na frequência, duração ou intensidade da menstruação. Isso acontece porque esses medicamentos atuam diretamente na regulação dos hormônios que controlam o ciclo menstrual.
Anticoncepcionais combinados que contêm estrogênio (geralmente etinilestradiol) associado a progestagênios como levonorgestrel, desogestrel ou drospirenona costumam ajudar a regularizar o ciclo e reduzir o fluxo menstrual ao longo do tempo.
Já métodos que utilizam apenas progestagênio, como a minipílula, implantes hormonais ou alguns dispositivos intrauterinos (DIU hormonal com levonorgestrel), podem causar maior irregularidade menstrual nos primeiros meses de uso, incluindo escapes, sangramentos frequentes ou até ausência de menstruação.
Essas alterações geralmente são esperadas durante o período de adaptação do organismo, que pode durar entre três e seis meses. Caso as irregularidades persistam ou causem desconforto, a avaliação médica é recomendada. Nesses casos, exames laboratoriais que avaliam o perfil hormonal, como FSH, LH, estradiol e progesterona, podem ajudar a investigar a causa das alterações no ciclo e orientar o acompanhamento clínico.
6. Alterações no útero ou nas trompas também podem influenciar
Em alguns casos, irregularidades podem estar associadas a alterações estruturais no sistema reprodutivo, como miomatose uterina, adenomiose, endometriose, dentre outros. Quando há sintomas como dor pélvica, sangramento intenso ou dificuldade para engravidar, o médico pode solicitar exames específicos para investigar a saúde do útero e das trompas. Um deles é a histerossalpingografia (HSG), exame de imagem que permite identificar possíveis obstruções ou alterações anatômicas.
Acompanhar o ciclo ajuda a identificar mudanças
Anotar a data da menstruação ou usar aplicativos de monitoramento pode ajudar a perceber padrões e identificar alterações importantes. Se o ciclo menstrual permanecer desregulado por vários meses, a recomendação é procurar avaliação ginecológica para investigar as possíveis causas e receber orientação adequada.
Por Mariana Durante




















