Há pouco, me colocaram frente a frente para Millôr Fernandes. Um contato direto, sem escalas. Desmoronei, feito aquele promissor castelo de areia exposto à fúria das ondas. Millôr é um sujeito à frente do seu tempo, inteligente ao extremo. Autor de um texto sofisticado, mas complexo. Sem “papas na língua”, ele desfiava aquela inclusa ironia de sempre, folheada a muita criatividade e coerência, com sólido cotidiano no miolo. Confesso, nunca apanhei tanto neste diálogo. Estremeci. Até esqueci que um de nós estava impresso.
Desde então, ainda não apalpei um chão para sustentar meus pés. Em um longo diálogo entre nós, em que fomos mediados pela revista Bravo! – suplemento cultural que, ao meu ver, deveria estar incluído no cesto básico das pessoas –, atendemos a muitas de nossas prioridades literárias e, travestidos pela elegância que a ocasião nos exigia, enfrentamos as adversidades com sensatez. De nosso bate-papo quase informal, entre tantas pérolas, uma delas em especial me solicitou: “Não acredito ler com esforço”. Abusado este Millôr!
Antes de me posicionar a respeito, dei pausa. É importante visitarmos, isso evita atitude impensadas, os equívocos. Foi o que fiz: voltei a experimentar as minhas vivências e experiências de leituras (algumas, ainda, por completar). Ora, pode ser Millôr um abusado de Estrela-maior, mas cá entre nós… Era o momento ideal para eu exercitar minhas convicções. “Não acredito ler com esforço” é expressão que salta aos olhos com tamanha simplicidade e desafia-nos, de essência tão própria quanto necessária para debates de âmbitos literário e pedagógico. Inesgotável, simplesmente.
Exagerado, eu? Muito divaguei sobre o tema. Construí frases que considerei notáveis a partir do embasamento teórico por mim usado. No entanto, tudo o que eu queria dizer já foi dito por Millôr de forma clara e sintética. Resta-me, agora, encontrar nesta frase minhas verdades como professor de Literatura e pequeno escritor, para então sustentá-la a partir das minhas experiências de leitura, confrontadas às pesquisas que farei sobre o oportuno tema em questão.
Com o passar do tempo, aprendi a respeitar o Texto. Antes de ser escritor, eu me considero assíduo leitor. Para sustentar o insustentável (de uma comparação absurda) acredito: ser eu um insubstituível operário entre tantos outros, que trabalha em função das Grandes Obras (construções universais), e não por vaidade. Pois não escrevo para contentar ou atrair a atenção de todos: mas, sim, escrevo para Aqueles que procuram o Texto, e nada mais.
Ler com esforço é uma experiência que não ensina a viver, com certeza mais dia ou menos dia bateu, está batendo e baterá à nossa porta. E só reforça o que me disse Millôr, anteriormente.
Eu, por exemplo, procuro estar sempre bem informado de autores e obras, seja em verso ou em prosa, narrativa longa ou curta. Indicação ou por interesse meu, o certo é que se cria expectativa, como em tudo na vida. Porém isso não significa que para todas “as investidas” (ou aventuras textuais), sem exceção, todas se confirmarão em leitura. Neste percurso, a frustração é um termômetro. Não há sombra de dúvidas, de que a leitura quando pedante se equivale a uma insolúvel carga, muitas vezes carregada por nós a longos percursos. A palavra carga, por si só já é pesada, mesmo as cargas mais leves. E que quando mais precisamos de Leveza – esse adjetivo tão necessário para amortecer nossa incansável e condicional busca pelo prazer pessoal.
(Outro assunto entra em pauta.) Millôr e eu tivemos nosso bate-papo interrompido, questão de agenda… Mas deste encontro compartilhamos enriquecedoras lições. O texto é aprazível ou não é. E ponto final. Ler com esforço é desgastante, dispersa nossa atenção. Enfim, é uma experiência que nos deprime pelo desconforto que nos causa. Escritas para enfoques e contextos diferentes, ainda assim discorremos sobre a pauta “leitura”. Abusando da ocasião, só para avisá-lo: Millôr, o próximo café é na tua casa, combinado!





















