Vivemos a era da informática, do mundo virtual, do Orkut, Facebook, notebooks, e-mails e também e-books. Uma geração silício, uma geração que vive e interage on-line. Hábitos e costumes do passado são coisas do próprio passado ou de historiadores. Certo? Errado! As velhas figurinhas de álbum da Copa ainda estão em moda. O que parecia enterrado no passado é mania, febre nacional, não sei se mundial. Pandemia, ao que parece. E não posso atirar a primeira pedra, afinal não só tenho várias coleções de figurinhas, como de selos, moedas, cédulas, livros e etc. Mania de quem adora História.
Meu filho tem dez anos de idade e está colecionando o tal “Álbum da Copa”. Pensei em escrever uma crítica ao consumismo capitalista, afinal há dois álbuns da Copa, o oficial e o genérico. Para concluir o oficial o colecionador desembolsará, no mínimo, R$ 480,00 se contar com a sorte e não tiver nenhuma das 638 figurinhas repetidas. Mas antes mesmo do sermão ao pequeno capitalista me dei conta de que eu mesmo fui/sou um colecionador inveterado. Pegaria mal para mim. Mudei o discurso, em vez da repreensão fui atrás das minhas caixas de arquivo, que minha esposa diz ser meu museu, para mostrar o que o Júnior vai herdar.
Remexendo os arquivos procurando as minhas figurinhas de Copas passadas encontrei a pasta de 1990 – historiador que se preze guarda tudo bem organizado e olha que nessa época eu também só tinha doze anos; e não é preciso dizer que minha esposa não concorda com essa coisa de arquivar tudo. Bom, 90 foi o ano da Copa da Itália e de uma mascote que ninguém lembra o nome, o Ciao. A pasta está cheia de recortes de jornal, figurinhas e alguns outros recortes e anotações referentes aquela Copa. O jornal que primeiro encontro é a capa da Zero Hora de 22 de junho de 1990: Maradona cobre meia página, sorridente, vestindo a camisa verde amarela. Ele e Caniggia haviam destruído o sonho brasileiro do tetra no dia anterior. Outro jornal, o de 9 de julho, além do capitão alemão com a taça de Campeão do Mundo, destaca a morte de Cazuza, uma inflação de 15% ao mês, o primeiro ano de Menem na Argentina e a tentativa do Congresso de votar o projeto dos salários – realmente algumas coisas não mudam mesmo! Em junho de 1990 o Grêmio tinha no time o “negão Maurício” e o Inter tinha Valdir Espinosa no banco de reservas…
Mas comecei com as figurinhas, voltemos às figurinhas. Colecionar figurinhas vai muito além da emoção de conseguir completar o álbum, aliás, como diz o comercial completar o álbum não tem preço, mas é também deixar registrada parte de um momento histórico em que todo o mundo e todos nós nos envolvemos de alguma maneira. Lamento até hoje ter perdido minha primeira coleção de figurinhas, a de 1986, a Copa do México e da mascote Pique. Essas não tinham álbum, elas vinham no chiclete Ping-Pong e todo guri andava com a boca cheia de chicletes, e o bolso de figurinhas, pronto a encarar qualquer desafiante no bafo, jogo que consistia em “casar” várias figurinhas umas sobre as outras, geralmente as que você tinha mais de uma, e dar um “tapa” com a mão, as que virassem com a imagem para cima seriam suas.
Além das figurinhas para álbuns – as de chiclete sim caíram de moda – uma Copa do Mundo gerava, e ainda gera para desespero dos pais, uma enormidade de coleções: figurinhas em salgadinhos, bonecos de pelúcia em promoção de caixas de leite, caixinhas de fósforo e até caixa de sabão em pó. Aliás, das caixas de sabão em pó OMO eu ainda tenho a coleção de 1990. Essa coleção vinha com a história de cada Copa, desde 1934. Ali estavam os times nas quatro primeiras colocações, características do país, a escalação da seleção brasileira e curiosidade sobre a Copa do ano em questão. Haja sabão em pó.
Além das coleções havia ainda as cartelas com os jogos geralmente distribuídas como propaganda, que iam de postos de gasolina a antenas de TV. A de 1986, por exemplo, foi distribuída pela Esso com o slogan “Arriba Brasil!”. Marcavam-se os resultados dos jogos ao lado das bandeiras identificadas de cada país e ainda havia bandeiras reservas para recortar e colocar nos jogos das fases finais.
Hoje realmente parece que as figurinhas de álbuns permaneceram em detrimento de outras coleções que perderam o sentido. A novidade é que aliadas às crianças, hoje estão os marmanjos que não tiveram infância ou ainda não deixaram ela. Na semana passada fui a um dos pontos de venda de figurinhas e vi um senhor desesperado porque não encontrava o álbum oficial e outro comprando um lote de figurinhas. O senhor interrogado se procurava o álbum para o filho respondeu que não, era para ele mesmo!




















