Epitáfio para o meu terapeuta

“Devia ter amado mais,Ter chorado mais,Ter visto o sol nascer…” De repente, esta música, tão ouvida na minha adolescência, como se impulsionada por alguma vontade extrafísica, vem, em retalhos, me…
“Devia ter amado mais,
Ter chorado mais,
Ter visto o sol nascer…”

De repente, esta música, tão ouvida na minha adolescência, como se impulsionada por alguma vontade extrafísica, vem, em retalhos, me martelando os ouvidos nesses últimos três meses. Coincidência, ou não, é este o tempo em que o meu maldito psicoterapeuta bateu a cassuleta.
Nesses pouco mais de trinta anos, semanalmente busquei em seu duvidoso divã a saída para meus problemas de dificuldades de relacionamento em geral: afetivo, interpessoal, social e de autoestima.

“Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr…”

Agora, e bastaram apenas três meses!!!, pela vez primeira liberta daquele manipulador – nisso, sim, ele foi extremamente competente – pude perceber que o processo todo tivera seu início eticamente equivocado. Ele fora, até pouco tempo antes de me ter como paciente, terapeuta de meu ex-namorado.

Realmente, na medida em que os anos avançavam, eu progredia a “passos de caranguejo” nos meus relacionamentos afetivos. Claro que eu nutria afetos pelas pessoas mais próximas a mim, isso era evidente! Mas – ora bolas! – não esperassem elas que eu, com pieguices, verbalizasse a cada final de semana, a cada data festiva, que eu as amava, que me eram extremamente importantes e talicoisa. Não! Fechei as comportas de quaisquer sentimentalismos. Mas os meus afetos, garanto, eles estavam presentes! Represados, está certo, mas estavam, pô!

“Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier…”**

Hoje já não ironizo da atitude de minha tia, ao agendar consulta com um calhorda “especializado” em psiquiatria clínica, para saber, afinal qual “a técnica de abordagem” por ele adotada para com minha avó, irremediavelmente dependente das drogas por ele prescritas. A tia, até hoje, aguarda a confirmação da entrevista. Pudera, de um profissional(?), cuja primeira mulher desembarcara do taxi numa das ilhas do Guaíba e, sob o olhar estupefato do motorista, que sequer tivera tempo de alcançá-la, desapareceu sob as fétidas águas do rio, o que se poderia esperar? O alegre viúvo não contou tempo: casou-se com a irmã da falecida sob o argumento de que esta “retornara às origens”.

“Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração…”

Meu tempo e meu trabalho só importavam a mim; o terapeuta sempre disso soubera e assentira. Não suportava ouvir das pessoas o papo furado sobre futebol, condições do tempo, do último desfile da Milka, da sua dor de dente, da inflamação no ouvido do júnior. Isso me era maçante!

“Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr…”

Há três meses me vejo liberta do crápula que somente foi competente para aumentar sua conta bancária; o homem que “comeu” durante esses trinta anos 1/3 dos meus rendimentos está morto, morto, moooooortoooooo!

E eu, viva estou?

Que mistérios insondáveis me fizeram tão cega? Que vaidades e egoísmos – a exemplo do que fizera com meus afetos – construíram a indestrutível redoma que me apartou de suas vidas?
Hoje, sou uma mulher só, sem filhos, porque permiti às pessoas se sentirem sós. Não! Minto! Não me abandonaram a inteligência e a grande capacidade profissional, que minha autoestima soube tardiamente reconhecer.

“O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…”

*O texto é puramente ficcional; qualquer semelhança na eventual relação terapeuta/paciente, ou fato real, terá sido mera coincidência.

** Epitáfio – composição de Sergio Britto – Titãs

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