És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…”
Olavo Bilac, in “Língua Portuguesa”.
Minha amiga e confreira de Associação dos Escritores do Litoral Norte, colunista deste impávido Litoralmania, Titi Martins, publicou, neste 14 de setembro último, sua pungente história de vida, sob o título “De menina moleca a mulher formada!“
Sob o manto do covarde anonimato, um “tal” de “Corretor Ortográfico de Porto Alegre” transfigurou-se, ainda que não destituído de razão, em cruel e implacável “corregedor”, não apenas do comovente texto da autora como de alguns de seus incautos comentaristas.
Se ao intransigente “Corretor Ortográfico” sobejaram-lhe conhecimento e domínio de nossa Última Flor do Lácio, faltou-lhe, em contrapartida, a magnanimidade dos sábios.
Numa de minhas Oficinas de Criação Literária um aluno me perguntou como poderia vir a ser um escritor? Respondi-lhe que, afora algum talento, três coisas eram fundamentais: Ler, ler e ler. Muito, não necessariamente os clássicos, sobretudo os bons autores! Poderia não resultar num escritor, porém um excelente e crítico leitor. Outro indagou como as personagens de uma obra literária deveriam, quando dialogassem entre si, tratar-se: – tu ou você? – Não importa! Tanta uma como outra forma estará correta e, até mesmo – hoje já se admite –, se o pronome de tratamento não concordar com a pessoa do verbo. Exemplo: – “Tu vai (ao invés de “vais”) trabalhar hoje?”, ou “Se tu souber (souberes) quem tá (está) interessado me diga (diz)!”. Muitos definem esses arranjos como “licença poética”, em favor do andamento do texto.
Claro que a linguagem (literária ou a do dia-a-dia) deve evoluir para a sua simplicidade e objetividade. Escrever – uma obra literária ou ensaio, uma simples crônica ou coluna de jornal – é um ofício extremamente sério. Lidamos com leitores de diferentes culturas e escolaridades, mas, fundamentalmente identificadas como pessoas que se mostram ávidas em saber o que pensamos e, acima de qualquer outro quesito, o que sentimos, o que nossa alma quer comunicar, através de nossa escrita.
Não obstante tais licenças poéticas, o texto de se disciplinar, sim, ao nosso aprendizado básico: substantivos, adjetivos, advérbios, enfim, devem concordar em número, gênero e grau. Respeitem-se, ainda, as concordâncias nominais e verbais. A nossa idéia deve fluir (início, meio e fim) e ter ritmo (como se fosse uma melodia). As frases não devem ser truncadas, característica do que denominamos “texto duro”.
Ao escritor deve acudir à lembrança que, do outro lado, há um leitor que, em princípio, desconhece o que realmente pretendemos expressar. Não podemos, é natural, ser permanentemente infalíveis. E, ante algum eventual equívoco gramatical de nossa parte, somos merecedores do respeito e da compreensão de nossos leitores. Ao publicarmos um livro há um longo prazo de maturação, além de sermos salvos pela revisão. Num veículo como o jornal nós próprios somos os “corregedores literários”.
Na ânsia mais do que justa de enunciar nossas idéias e opiniões, sobretudo nos textos em que se afloram todas as nossas emoções, podemos, inadvertidamente, cometer alguns pecadilhos ao narrar a nossa própria história. Pois ela (a história), Titi, irá diretamente aos leitores para quem nosso estilo e modus operandi satisfaçam, dispensando a mesquinhez e o anonimato nos quais se sustenta o “Corretor Ortográfico de Porto Alegre”.




















