A medicina brasileira vive um momento de transformação acelerada. Inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, novas ferramentas de gestão clínica, modelos híbridos de atendimento e discussões sobre qualidade assistencial dominam o debate público. No entanto, enquanto a prática médica evolui em sofisticação técnica, um aspecto estrutural da profissão permanece à margem das discussões: a organização da vida financeira em uma carreira cada vez mais fragmentada.
A realidade do médico brasileiro hoje é, em grande medida, multicarreira. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, apenas 33,3% dos profissionais em atividade possuíam emprego formal em 2023, uma queda significativa em relação a 2012, quando esse percentual era de 54%. Dos mais de 572 mil médicos no país, pouco mais de 190 mil mantêm vínculo formal de trabalho. A maioria atua de maneira pulverizada, combinando plantões em diferentes instituições, prestação de serviços como pessoa jurídica, consultório próprio, participação societária e contratos temporários.
Essa multiplicidade de vínculos, embora amplie possibilidades profissionais, impõe uma complexidade financeira pouco debatida. Rendimentos provenientes de fontes distintas, prazos de pagamento variados, regimes tributários diferentes e obrigações fiscais distribuídas tornam a gestão financeira um desafio constante — só que um desafio velado.
“Houve uma naturalização dessa fragmentação. Trabalhar em vários lugares virou sinônimo de expansão profissional, mas quase nunca se discute a infraestrutura necessária para sustentar essa dinâmica”, avalia Wilgo Cavalcante, CEO da Caveo, plataforma financeira da carreira médica. “Sem uma base organizada, a vida financeira passa a ser administrada como uma UTI permanente: tudo exige atenção imediata, pois o estado é crítico”, acrescenta.
Consequências para a medicina
Muito longe de trazer impactos apenas individuais, essa desestruturação financeira também afeta, em algum grau, o exercício da profissão. Não se trata de estabelecer relações simplistas entre organização financeira e prática clínica, mas de reconhecer que preocupação constante consome energia cognitiva, um recurso essencial na medicina.
“Não estamos falando de desempenho técnico ou de qualidade assistencial de forma direta. Estamos falando de carga mental”, afirma Wilgo Cavalcante, que justifica: “Quando o profissional precisa lidar continuamente com incertezas sobre recebimentos, impostos e contratos, parte da sua atenção está ocupada por temas que deveriam estar estruturados”.
Para se ter uma ideia de como essa pressão se manifesta na rotina, uma pesquisa da Caveo identificou que 69% dos profissionais se sentem sobrecarregados nos primeiros anos de carreira, especialmente pela dificuldade de conciliar plantões, estudos para residência, vida pessoal e decisões estruturantes, como abrir uma empresa ou definir caminhos de atuação. Além disso, seis em cada dez apontam a sobrecarga como um dos principais desafios da profissão.
Sensação recorrente de improviso
Mais do que carga horária, há uma sensação recorrente de improviso. Ainda conforme a pesquisa da Caveo, sete em cada dez médicos relatam dificuldades com temas como contabilidade, impostos e tributos. Quase metade avalia seu próprio conhecimento financeiro como baixo ou muito baixo, e 36,5% afirmam enfrentar problemas financeiros logo após a formação, justamente no momento de transição entre a faculdade e o mercado de trabalho.
“Pode parecer que a falta de estrutura financeira atinge apenas o médico, mas ela também impacta o ambiente profissional”, alerta Wilgo Cavalcante, que acrescenta: “Um ritmo de trabalho fragmentado, somado à insegurança sobre receitas, impostos e contratos, aumenta o nível de estresse e reduz a previsibilidade. E previsibilidade é um fator importante para planejamento de carreira, tomada de decisão e equilíbrio profissional”.
Organização financeira é essencial
A insegurança também se manifesta nas perspectivas futuras: cerca de 45% relatam dúvidas sobre como alcançar estabilidade financeira, citando falta de conteúdo confiável, ausência de mentoria e incertezas sobre remuneração, contratos e regimes de trabalho. Diante desse cenário, cresce a percepção de que a organização financeira não é um tema periférico, mas parte da própria estrutura da carreira médica.
“Se a medicina avançou em tecnologia, protocolos e modelos de atendimento, é natural que a discussão sobre a base que sustenta essa carreira também amadureça”, afirma Wilgo Cavalcante. A organização financeira também deve fazer parte do trabalho na medicina. “É por isso que valorizamos tanto a nossa proposta de integrar receitas, vínculos e obrigações em uma visão consolidada. Organização financeira não é um tema periférico. Ela influencia decisões estratégicas, mobilidade profissional, capacidade de investimento e até o ritmo de trabalho que o médico escolhe ter ao longo da vida”, finaliza.
Por Anna Oliveira




















