Dançar valsa em São Borja

Aos olhos dos parentes tudo não passava de tresloucada e fantástica aventura, sem medir as possíveis consequências de um tresloucado e impossível sonho. Para os loucos e apaixonados essa impossibilidade…
Aos olhos dos parentes tudo não passava de tresloucada e fantástica aventura, sem medir as possíveis consequências de um tresloucado e impossível sonho. Para os loucos e apaixonados essa impossibilidade jamais existiu, eis que todo desejo é, acima de tudo, movido por um sonho.

Havia sido extremamente difícil a Aleph convencer à mãe a empreender, no entendimento da velha e combalida senhora, aquela viagem surrealista: ao esplendoroso baile nos salões onde nascera e se ouvira a valsa primeira. Para ter o irmão e o sobrinho como aliados no convencimento à idosa, descortinou aos olhos da família o universo fantástico do berço da cultura, da música e da medicina da alma: Viena.

O saguão do aeroporto tornara-se pequeno à alegria e ao incontrolável frenesi que se apossara daquele nada convencional grupo de viajantes. Por mistérios insondáveis, Silene – a prima a quem Aleph, sob a égide do silêncio e das sombras, dedicava profano amor – ali também estava, fazendo-se também acompanhar pela mãe, viúva, a segunda irmã, Têmis, o marido e a pequena Nicéia, com uma semana de vida. Juntar-se iam, no Rio de Janeiro, ao grupo maior e definitivo para o voo charter às terras europeias.

Quis o destino que um fantasmagórico vendaval, formado por negras e espiraladas nuvens, destituísse de suas funções todos os instrumentos da aeronave. Com a força do remoinho de uma máquina do tempo, a tempestade congelou, não somente toda e qualquer ação lógica que pudesse emanar do piloto do aeroplano, como a própria noção de tempo e espaço, até que se apercebessem pousados, sãos e salvos, sobre a pradaria pampiana.

De onde se encontravam, avistaram as luzes da aldeia distante. Como trupe circense, arrastaram baús e gualdrapas com os pertences antes destinados ao grande baile vienense. Era manhãzinha quando alcançaram o adormecido vilarejo.

No casarão abandonado que lhes recordava o velho hotel dos filmes de caubóis, decidiram por se arranchar, do jeito que desse: os de seus, à revelia, esquecidos num canto do grande salão; eles, amontoados, uns sobre os outros – eis que a fadiga não requer preciosismos – até que anunciada fosse a partida definitiva para Viena.

Aleph percebeu – contrastando com a realidade da edificação – a majestosa escadaria que levava ao piso superior do sobrado. Galgou os seus degraus de par em par. Uma sóbria porta de jacarandá esculpida permitia o acesso à alcova. Nela se encontravam vários leitos simetricamente dispostos. Num deles, dormitavam a pequena Nicéia e o pai; noutro, Têmis velava o repouso do marido e da filha, no terceiro, sob os lençóis de fina seda, jazia Silene, lábios entreabertos, em todo o esplendor de sua beleza desnuda. Aleph, sem qualquer pressa e alarde, com decisão, dirigiu-se para a cama onde Silene repousava. Desfez-se de suas roupas, então desnecessárias, e sob o olhar comprazente de Têmis que voltara a velar o sono do esposo e da filha, dançou, após uma espera de cinquenta anos, a primeira e inesquecível valsa com sua amada imortal.

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Do térreo advinham as álacres manifestações dos que deixavam São Borja para trás.

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