CHALÉS DE MADEIRA DE DUAS ÁGUAS
(História de um grande amor)
No domingo que passou o meu filho Paulo Fernando, para me tirar um pouco de casa, me convidou para irmos ao Village Praia Clube– que está localizado no Posto 9 de Capão Novo, buscar um pouco de lenha para lareira que ele conseguiu com um seu novo amigo- o Sr. Vilson,69 anos – que lá reside.
O Village foi construído pelo gênio empreendedor do sr. Elmar Wagner.
O Village fica ao lado de um grande bosque de pinheiros, eucaliptos e outras árvores, o que lhe confere uma beleza natural e uma sensação de calma singulares.
O “seu Vagner” como ficou conhecido, no litoral norte, construiu o Village, como um condomínio aberto, com uma infraestrutura de primeiro mundo, ruas com calçamento, supermercado, clube social, lago natural e grandes e belas casas de alvenaria que, na época ,foram todas vendidas para veranistas que desejavam, nas férias, desfrutarem de um lugar onde a paz e as águas do mar estivessem a seu dispor.
Alguns terrenos não foram vendidos e, por isso, não receberam as casas de alto padrão, construídas pelo “Seu Vagner”.
Transacionados, posteriormente, os seus proprietários construíram, com seus gostos pessoais, belas casas de alvenaria ou de madeira, para as utilizarem durante o veraneio ou para morarem, durante o ano todo.
Fiz toda esta introdução para dizer aos meus sete ou oito leitores que fiquei emocionado quando ao lado daquelas belas e grandes casas de alvenaria, me deparei com alguns chalés de madeira de duas águas, construídos no sentido vertical ao terreno, com uma janela do lado direito de quem os vê e, no lado esquerdo uma área tendo, no seu fundo, uma porta de entrada.
Todos eles, pintados com tinta a óleo nas cores mais variadas, mas com predominância do marrom, do verde e do azul claro, todos com um pátio cercado e, algums, com jardins e bancos de madeira na frente.
Ao contemplá-los foi impossível não viajar no tempo e encontrar-me no ano de 1977, chegando com a Ana Maria no Chalezinho de duas águas, pintado de marrom Claro que tínhamos comprado, no Parque Madepinho -Zona Norte em Porto Alegre, para morarmos, depois de casados.
Nos instalamos ali e passamos a vivenciar os primeiros momentos de nossa eterna lua de mel.
Naquele ano a Ana conseguiu emprego no Banrisul e eu, já trabalhava, no Banco da Amazonia.
Para pegar o ônibus que vinha de outro bairro mais distante, tínhamos que caminhar três quadras até chegarmos na Av. Baltazar de Oliveira Garcia e dali, após quase uma hora de viagem, desembarcarmos na praça 15 de novembro e depois de um abraço e um beijo a Ana Maria começava a caminhar, por algumas quadras, até a Agencia Central do Banrisul, na rua Capitão Montanha e eu, fazia mesma coisa, dobrando na esquina da casa Guaspari e subindo a Borges de Medeiros até ao número 646 onde ficava a agencia do Banco Amazônia.
Não saiamos dos nossos trabalhos ao mesmo tempo.
Combinamos, então que o que saísse mais cedo esperaria o outro na Confeitaria Mateus que ficava Borges de Medeiros, antes do Cine Vitória.
Quando nos víamos juntos nos dávamos, como sempre, um grande abraço e um beijo demorado o qual, muitas vezes, chamava a atenção dos casais de idosos que frequentam a confeitaria, há muitos anos, aos fins de tarde.
Tomávamos um cafezinho e saímos nos dirigindo para a Praça 15 de novembro onde tomávamos o ônibus que nos deixaria, já no início da noite, na avenida que dava acesso ao Parque Madepinho Zona Norte.
Fazíamos o caminho até o nosso Chalé e, chegando começamos a preparar nossa janta, e enquanto não ficava pronta, tomávamos umas duas ou três doses de uísque Natu Nobilis.
Acompanhando a janta, não podia faltar uma ou duas garrafas de cerveja Polar, bem gelada.
Depois da janta víamos um pouco de televisão ou ouvíamos música gaúcha, para matar a saudade da fronteira e não esquecermos de nossas tradições.
Não muito tarde íamos nos deitar porque, no dia seguinte começava tudo de novo.
Nos sábados e domingos, sempre tinha uma carne assada na casa de vizinhos, os quais convidavam, com muita alegria, o casal mais novo.
Essa rotina mesmo com a dificuldade de chegarmos aos nossos trabalhos, dado a distância, nos era muito satisfatória pois misturava trabalho, muito amor, muitos sonhos, muita alegria e felicidades por, finalmente, depois de 7 anos entre namoro e noivado, estarmos juntos.
Ficamos no nosso chalé- nosso primeiro ninho de amor-até novembro de 1978 quando compramos um apartamento da Duque de Caxias, dando o nosso querido chalé como entrada e financiando o saldo pela Habitasul que, naquele tempo, dominava o mercado de financiamento imobiliário.
Em dezembro deste mesmo ano, para nossa felicidade, nasceu o Andre Luiz, nosso primogênito.
Ficamos na Duque vivendo outra realidade em termos de conforto, segurança e facilidade de deslocamento para nossos empregos.
O ano de 1984 quando nasceu o Paulo Fernando já nos encontrávamos morando em uma grande, moderna e confortável casa no Jardim Verde Ipanema, na fascinante zona sul de Porto Alegre.
Ficamos no Jardim Verde Ipanema, pois dois anos e, depois, peregrinamos, na Capital por diversos endereço como, Rua Riachuelo, Domingos José de Almeida, Lucas Oliveira e Felipe de Oliveira.
Em 2009, abandonando, definitivamente, Porto Alegre, viemos morar na Rua do Girassol em Capão Novo, onde me encontro até hoje.
Este local foi a última morada da Ana Maria, que partiu para o mundo do mistério e do desconhecido, internada que estava, no Hospital de Clínicas, na capital.
Partiu em um fim de tarde do dia 03 de novembro de 2020, abraçada em mim e com a cabeça no meu ombro, deixando-me mais triste e mais só…
Em todas estas moradas fomos felizes e juntos educamos nossos filhos André Luiz, Paulo Fernado e Magda- nossa filha do coração- de forma que, hoje, são trabalhadores e pessoas do bem.
Todas estas moradas foram testemunhas da nossa dedicação recíproca, do respeito mútuo, de nossa parceria e do amor que, de maneira tão forte nos uniu, mas nenhuma delas teve o encantamento do nosso Chalé de madeira, no Parque Madepinho Zona Norte, pintado de marrom claro, com uma janela a direita de quem olha e à esquerda uma área aberta com uma porta que dava entrada para ninho de amor no qual começamos nossas vidas.
Obrigado meu filho pelo convite que me fizeste para ir até o Village Praia Clube e lá ter visto um chalé de Madeira de duas águas que me fez lembrar de um lugar e de uma pequena morada que nos acolheu e nos fez felizes nos primeiros momentos em que o AMOR uniu, para sempre, as nossas vidas.
(Recanto da Ana e do Erner-15.07.25-Capão Novo)




















