– João Batista, oito vezes nove?
De pé e encabulado, o que lhe dava um ar corado, respondia inseguro:
– Setenta e dois, professora!
– Muito bem – continuava. Maria Alice, nove vezes seis?
– Cinquenta e quatro!
A professora começava a sabatina oral pelos alunos da fileira da esquerda, em tom alto e autoritário. Poucos erravam e, quando acontecia, o riso era geral. A inquirição ia percorrendo os alunos e, aos poucos, se aproximava de mim. Com o coração pulsando forte chegava a minha vez:
– Seis vezes oito, “Bolinha”?
Ela insistia em me chamar de “Bolinha”; nunca compreendi. Não era gordo; ao contrário, era magro. Talvez fosse por implicância. E a professora sabia que eu não sabia a resposta, pois era um fracasso em matemática. Mas ela perscrutava sem piedade. E a resposta errada fazia a aula ir ao delírio, em gargalhada farta e alta. Cabeça baixa, envergonhado, voltava a sentar no meu lugar.
O nome da megera – se bem lembro – era Talita. Gorda, baixa, de origem libanesa, morena, olhos verdes claros e esbugalhados. Era a nossa professora do segundo ano primário.
Diziam que havia noivado com um militar e, às vésperas do casamento, descobrira que ele era casado, inclusive com filhos, lá no Pará. Com a descoberta, entrara em profunda depressão. Falavam até que havia pensado em “se matar”. E isso soava aterrorizante aos alunos. Quem sabe não residisse no malogrado noivado a razão de todo aquele ar severo e arrogante, provocando nos alunos não um sentimento de respeito, mas de temor? Sim, nós tínhamos medo da dona Talita.
O meu desagrado à professora também – quem sabe? – era pelo fato de que, no ano anterior e primeiro do colégio, ter sido alfabetizado por dona Marília. Loira, alta, a memória me traz uma mulher esplendidamente bela. Possuía um perfume singular que, ao longo da vida, poucas vezes senti fragrância igual. Embora se mantendo distante, me era terna, sentimento que eu nutria timidamente escondido.
No dia do professor daquele ano, minha mãe mandou que eu levasse a ela de presente uma caixa de bombons. Detive-me. Com o presente na mão, encabulado, não tinha coragem de entregá-lo. Foi minha irmã mais velha que, vendo a hesitação, comigo entregou o mimo à professora, no pátio, antes da batida do sino para a entrada na aula. A professora se abaixou sorrindo, afagou-me e agradeceu. Lembro-me que o seu perfume ficou fixado no meu rosto por muitas horas. Naquela noite dormi sentindo a fragrância da dona Marília…
Mas houve outra professora, do terceiro ano primário, dona Sílvia, que foi, definitivamente, quem mais me cativou. Era magrinha, esbelta, cabelos longos, escuros e tez alva.
No início do ano, por me encontrar doente, para que pudesse acompanhar o conteúdo ministrado na classe, me dava aulas particulares. Acabou por ficar amiga e confidente de minha mãe e se soube, entre as vicissitudes que enfrentava, que era através do magistério que conseguia compor o equilíbrio financeiro da casa, ajudando os pais e um irmão excepcional.
No ano seguinte, fui obrigado a deixar aquele colégio, e nunca mais soube dos destinos daquelas professoras, tão diferentes e tão marcantes que passaram pelo início da minha vida escolar.
Olho para trás e procuro transportá-las para os dias de hoje. A primeira indagação, decorridos tantos anos é inexorável: com que idades estarão? Continuam a lecionar? Creio inviável. Vivem? Penso possível. Terão vencido os percalços da vida? Espero que sim. Eu, como elas, afinal, restamos sugados pelo redemoinho da vida…
Agora, dona Talita, passados todos esses anos, digo que não lhe guardo mal algum; mas que foi bem feito ter arrumado um namorado casado, ah, isso foi!





















