Intelectual não vai à praia, intelectual bebe! – Sergio Agra

Há vinte e um anos (meeeeeeeu Deeeeeus! E a justa progressão de pena, não conta?), quando migramos para Capão da Canoa com malas e balde de gelo — desculpem a…

Há vinte e um anos (meeeeeeeu Deeeeeus! E a justa progressão de pena, não conta?), quando migramos para Capão da Canoa com malas e balde de gelo — desculpem a estranheza, nunca fui adepto do garrafão térmico com 85 litros de água estupidamente fervente na destra e, na esquerda, a cuia de porongo derramando uma erva esverdeada que os caras-pálidas chamam de mate; menos ainda sorver aquela água fervida no caldeirão do diabo, agora misturada a tal de erva-mate, através de um canudinho metálico com bocal de ouro falsificado que os gaudérios chamam de bomba —, eu havia projetado preencher os dias do restante de minha vida com múltiplas, prazerosas e criativas atividades.

Não muito distante de minha casa se avistava uma plataforma marítima. Pagando-se o “dízimo” àquele imenso estrado de cimento armado (que submergiu com o vendaval e o dilúvio de 2024), que avançava mar adentro, era permitido o acesso de diletantes pescadores. Tarefa, no meu caso, impraticável; sequer sabia se a isca apropriada era a minhoca, o camarão ou o marisco. Desconheço até hoje as diferenças entre uma tarrafa e uma rede de cerco, menos ainda o que significam as designações Blank, Real Seat, Rear Grip, Butt Cap, Tip Top, Guides e Hook Keep, quando desconfio ser o caniço apenas uma vara de bambu atada a uma cordinha de nylon e, na sua extremidade, o anzol… Desisti!

Então… Na primeira caminhada ao longo do Calçadão da Beira-Mar, fui convidado para compor dupla numa partida de bocha. Avisei os camaradas de que eu jamais havia praticado tal jogo, o qual eu vira por vez primeira em Saint-Paul-de-Vence, uma pequena aldeia no sul da França. Naquele charmoso e artístico vilarejo, conhecido por suas ruas estreitas e muralhas medievais, conheci, jogando petanca (a bocha francesa com bolas de metal), en compagnie de ses amis, Yves Montand, famoso chanteur e ator francês, amante de Edith Piaf, Marilyn Monroe e da também atriz Simone Signoret, com quem esteve casado durante trinta anos, até a morte desta. Gentil, acedeu em juntos brindarmos o encontro numa foto registrada numa máquina Nikon.

Mas voltemos a Capão da Canoa e ao gaudério jogo de bochas: ao fundo da quadra, inúmeras bolas vermelhas e azuis de igual tamanho rodeavam uma menor, de cor esbranquiçada. O parceiro sussurrava a dica: — “No bolim, mira no bolim!”. Cerrei um olho e, com o outro aberto, fiz a mira e arremessei, com absurda violência, a bola azul que eu segurava, espalhando indistintamente para todos os lados, até mesmo para fora da cancha, as esferas vermelhas e azuis. Não mais sob sussurros, abaixo de gritos — “No bolim, seu desastrado, no bolim, e não no “bolinho”! — empreendi “une sortie pas de tout française” (saída à francesa) e a encerrei sob o manto azul e protetor da imagem de Iemanjá!

Após todos esses destrambelhos naquilo que jamais fora a minha praia, redescobri a leitura e a escrita, “vício” mais poderosos do que a heroína, a cocaína e o crack, dos quais me tornei irreversivelmente dependente. Nessas duas décadas em que aqui me recluso, das poucas vezes que fomos à praia — menos ainda para mergulhar no mar(rom) —, levávamos não a garrafa com água a 300°C para o tal de “chimas”, a caixa térmica de acrílico com muito gelo picado, várias latas da dourada e cremosa Amstel e duas “emergenciais” Freixenets Carta Nevada, Demi-Sec.

Intelectual não vai à praia, intelectual bebe! - Sergio Agra 10

Com o surto da Covid-19, mais razão me assistiu permanecer em casa, onde, da minha janela, ainda vislumbro, nas primeiras horas do dia, à minha frente, a larga avenida com seus canteiros enfeitados de pequenas palmeiras, à nascente o sol sobre o oceano e a imagem de Iemanjá, e, à minha direita, fragmentos das lagoas e o verde das montanhas.

Apanho o balde de gelo onde deposito o Chardonnay de generosa safra. De uma das estantes retiro o “Livro do Desassossego”, do Eça. Escolho o CD de Elis em que “rubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas” e convido “o bêbado trajando luto” no instante em que “chora a nossa Pátria, mãe gentil, pois a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”…

Então, Carlitos e eu erguemos os cálices e brindamos o descerramento da simpática — não concordas? — imagem de meu alter ego que, a partir de hoje, há de ilustrar minhas pretenciosas ousadias literárias.

Okê, Brasil, sil, sil, sil…

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