Empresas em apuros: a recuperação judicial no Rio Grande do Sul registrou crescimento sem precedentes em 2025, acompanhada por um salto expressivo no número de falências decretadas.
Empresas vivem momentos difíceis após crises
O cenário é resultado direto dos impactos da enchente de 2024, que devastou estruturas empresariais no Estado, aliado ao endividamento herdado da pandemia e à alta taxa de juros.
De acordo com a Junta Comercial, Industrial e Serviços do Rio Grande do Sul (Jucis RS), entre janeiro e agosto foram contabilizados 136 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica iniciada em 2018.
O aumento representa alta de 28% em relação ao mesmo período de 2024 (106) e mais que o dobro dos 55 registros feitos em 2023.
Em complemento, conforme o Monitor RGF de Recuperação Judicial, o Rio Grande do Sul é atualmente o segundo Estado com o maior número de processos deste tipo em andamento no país, com 460.
O número equivale a cerca de 9% do total de 4.965 ações de RJ tramitando em todo o Brasil.
Especialistas explicam: quando recuperação vira falência
Segundo o economista Oscar Frank, da CDL de Porto Alegre, o pedido de recuperação judicial é um reflexo imediato das dificuldades econômicas.
Já a falência costuma ser um indicador defasado, decretada quando as tentativas de reestruturação fracassam.
O advogado Luciano Fernandes, especialista em direito empresarial, explica que, ao entrar em recuperação, a companhia recebe o chamado stay period — um prazo de 180 dias no qual execuções e cobranças ficam suspensas. Nesse período, a empresa tenta reorganizar operações e renegociar dívidas para manter-se ativa:
“O aumento de falências mostra justamente que muitas empresas não conseguem aproveitar esse prazo para se recuperar. Passada a fase emergencial, o caixa não fecha e o fim das atividades se torna inevitável”, afirma Fernandes.
O impacto da enchente de 2024 e do cenário econômico
A sequência de crises recentes explica o agravamento da situação no RS.
Pandemia, estiagens prolongadas no campo e, por fim, a enchente histórica de 2024 foram fatores que corroeram a resiliência empresarial.
“Muitas companhias recorreram a crédito durante a pandemia, quando a Selic estava em 2%. Hoje, enfrentam juros em torno de 15% e custos operacionais elevados, sem o mesmo ritmo de crescimento econômico”, destaca Frank.
O resultado é um ciclo de endividamento difícil de reverter.
BLK Parts: caso emblemático da recuperação judicial no RS
Um dos exemplos em 2025 é o da BLK Parts, fabricante de rolamentos e correias localizada no bairro Navegantes, em Porto Alegre.
A estrutura da empresa foi tomada pelas águas da enchente de 2024, causando prejuízos de aproximadamente R$ 5 milhões:
“Já vínhamos em ritmo lento. A enchente atingiu equipamentos, estrutura e nos paralisou por meses. Sem recuperação judicial, teríamos fechado as portas definitivamente”, afirma o diretor Gabriel Müller.
O setor produtivo mais afetado, segundo o Monitor RGF, é o cultivo de soja, com 59 pedidos de recuperação, seguido pelo comércio varejista de combustíveis (32) e transporte rodoviário de cargas (22).
Cresce também o número de falências decretadas
Além dos pedidos de recuperação judicial, o RS viu disparar as falências em 2025.
De janeiro a agosto, foram 69 decretações, contra 39 no mesmo período do ano anterior, uma alta de 76,9%.
Trata-se do maior índice desde 2019.
Entre os casos está a Martau, tradicional fabricante de ventiladores.
A empresa já havia enfrentado falência em 2021, revertida na Justiça, e tentou sobreviver via recuperação judicial.
Em 2025, sem sucesso, teve a falência decretada novamente:
“As atividades estavam enfraquecidas antes mesmo da enchente, que apenas acelerou o colapso da empresa”, explica o advogado e administrador judicial Fábio Cainelli de Almeida.





















